AVISO! O EIV-SC 2018, infelizmente, está SUSPENSO.

Trabalhamos durante todo o ano para sua realização, e até pouco tempo acreditávamos que ele realmente aconteceria. Acreditamos no EIV como uma ferramenta de fortalecimento dos movimentos populares do campo e da cidade e a disputa da verba pública universitária para extensão popular. Sua não realização nesse início de ano é uma grande perda.
Em diálogo com a Via Campesina, estamos na construção de um Seminário para discussão e alinhamento da construção do EIV com os movimentos do campo. Focaremos, neste momento, no fortalecimento da confiança e parceria com a Via Campesina para que ele volte a acontecer o mais breve possível.
Divulgaremos mais informações, e manteremos vocês atualizadas/os por meio de nossos instrumentos de divulgação, mantenham-se atentas/os!
Contamos com todas/os vocês para que o EIV volte com toda a potência que lhe cabe!
Atenciosamente, CPP 2018.

8º Encontro Nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB)

Durante os dias 1 a 5 de outubro, o Rio de Janeiro (RJ) receberá o 8º Encontro Nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). Com o lema “Água e energia com soberania, distribuição da riqueza e controle popular”, reunirá cerca de 4 mil pessoas de todas as regiões do Brasil.

Realizado a cada quatro anos, o evento tem como objetivo avaliar a atuação do movimento, debater a conjuntura política atual e traçar os rumos da organização. Desde sua última edição, que ocorreu em 2013 em Cotia (SP), diversos acontecimentos afetaram as populações atingidas.

O caso mais significativo foi o rompimento da barragem de rejeitos de Fundão, em Bento Rodrigues (MG), ocorrido em novembro de 2015. “O crime da Samarco foi responsável pela morte de 19 pessoas e até hoje continua impune. Esse não é um caso isolado. Observamos nos últimos anos uma ofensiva do capital em relação à vida dos atingidos”, opina Gilberto Cervinski, da coordenação do MAB.

Para ele, os retrocessos não se restringem às populações impactadas por barragens. O atual momento político brasileiro e latino-americano é grave e necessita de fortalecimento da esquerda. “O campo popular e a democracia sofreram um duro golpe. Vivemos grandes retrocessos que só serão enfrentados com muita unidade”, afirma Cervinski.

Dia 3 de outubro: Ato em defesa da soberania nacional

Nesse cenário de perda de direitos e retomada de políticas neoliberais, a disputa no setor de energia elétrica se acirra. Essa é a opinião da Plataforma Operária e Camponesa da Energia, organização criada em 2010 por trabalhadores do setor da energia (petroleiros, eletricitários e engenheiros) e por atingidos por barragens.

No dia 3 de outubro, dia do aniversário de 64 anos da Petrobras, essa articulação pretende realizar um grande ato unificado em defesa das estatais e contra a privatização do pré-sal e do setor elétrico. O ato acontecerá no Rio de Janeiro e já recebeu apoio da Frente Brasil Popular.

O que é o MAB?

Criado há 26 anos, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) busca organizar as populações impactadas pela construção de barragens (hidrelétrica, rejeito de minério e transporte de água) para garantir seus direitos.

De acordo com Alexânia Rossato, da coordenação do movimento, os efeitos das barragens vão além do fator econômico. “Ao longo desses anos detectamos uma espécie de indústria de violação de direitos. E os impactos não se limitam à perda da casa ou da terra, mas também a perdas sociais e culturais. As violações vão desde o direito de dizer ‘não’ à barragem, até o aumento da violência contra a mulher”, explica Rossato.

Cartilha preparatória para o encontro: https://issuu.com/mabnacional/docs/cartilha-rumo-8encontro-nacional-ma

fonte: http://www.mabnacional.org.br/noticia/no-rio-janeiro-encontro-reunir-4-mil-atingidos-por-barragens-0

Arpilleras: atingidas por barragens bordando a resistência ♀

O que une 10 mulheres de diferentes regiões do país? Elas se conectam na dor da perda de suas memórias, mas também na força de resistir e de se converterem em autoras de sua própria história. Elas são mulheres atingidas por barragens. E a costura sua ferramenta de luta.

 

 

O longa-metragem conta a história de luta das mulheres atingidas por barragens nas cinco regiões do país usando uma técnica de bordado advinda do legado das mulheres chilenas que bravamente lutaram contra a sangrenta ditadura militar instalada em setembro de 73. No Brasil, a técnica das arpilleras foi ensinada e fomentada pelo MAB nos últimos anos através de oficinas realizadas em todas as regiões do país.

Carta da Comissão Política Pedagógica sobre a postura da União da Juventude Comunista (UJC) durante a construção dos últimos EIV´s em Santa Catarina

Esta carta é o resultado de experiências e avaliações acumuladas pelos integrantes da Comissão Política Pedagógica do EIV-SC que vieram construindo o estágio durante os últimos anos e que no início desse ano julgaram necessária a construção deste documento. Os apontamentos feitos aqui são produtos da visão da comissão que construiu o estágio em 2016 e o realizou no início de 2017, não representando a totalidade dos integrantes que hoje constroem o EIV-SC.


Durante os últimos Estágios Interdisciplinar de Vivência (EIV-SC) houveram diversos problemas na construção do estágio. Um destes problemas foram as posturas dxs militantes da União da Juventude Comunista (UJC). Com isso resolvemos escrever esse relato coletivo da CPP 2016.
No início de 2016, na reunião de avaliação do estágio, na qual todas as pessoas envolvidas na construção e CPP do mesmo, deveriam estar presentes, foi feito o balanço desta organização. Apenas uma militante desta esteve presente até o final, e ficou de repassar as informações à UJC. No entanto, ao perguntarmos às(aos) outrxs militantes da mesma organização se o balanço foi repassado verificamos que as informações não chegaram a todxs xs militantes da organização. Em virtude destes fatos escrevemos esta carta a UJC para garantir que o balanço da conduta dxs militantes seja exposto e que isso gere a autocrítica necessária para que consigamos manter um ambiente saudável baseado na construção coletiva e horizontal do estágio.
Entendemos como importante relatar alguns fatos ocorridos em 2015, período em que muitas integrantes da CPP começaram a ter uma desconfiança, desconforto com o descomprometimento e engajamentos esporádicos de militantes da UJC. Essas práticas deram margem a interpretações de oportunismo da participação dessa organização na CPP com o EIV-SC. Neste ano, militantes da UJC se comprometeram em diversas tarefas, ressaltando a tarefa fundamental de enviar e contatar xs estagiárixs selecionadxs. Várias tarefas ao longo do ano não foram cumpridas em seus prazos, ou foram descumpridas e não repassadas ao grande grupo, prática que desgastou a construção durante o ano e durante o estágio.
Como agravante, durante o estágio em 2016, integrantes da CPP suspeitaram de uma tentativa de aparelhamento ao descobrir a grande quantidade de militantes do Coletivo Ana Montenegro durante o estágio (e não no processo de seleção no qual estipulamos o número de organizadxs por coletivos/organizações/movimentos). Houveram posturas dúbias, em que diversas vezes ao serem questionadxs aparentavam desconhecer os problemas e a displicência no cumprimento das tarefas. O que entendemos como atos graves que comprometem o trabalho de diversxs militantes comprometidxs com a realização do estágio.
Outra situação ocorreu durante o estágio em 2017 onde uma militante da UJC, sem consultar formalmente a CPP e apresentando diversas informações desencontradas apareceu durante a fase de formação no estágio. Tal acontecimento, em meio a uma atmosfera de tensionamentos na realização do estágio e um histórico que suscita desconfiança perante a organização, culminou em uma abordagem abrupta da CPP perante a militante. Desaprovamos essa postura por parte da UJC uma vez que responde pela postura de seus/suas militantes. Entretanto, tal evento não legitima a agressividade e insensibilidade com que foi tratada a militante e, por este acontecimento, nos retratamos formalmente.
O fato de não encarar o EIV com a seriedade que xs demais membrxs da CPP encaram, com a soma de repetidas posturas duvidosas, reforça a desconfiança de que a organização referida esteja tentando aparelhar o espaço com o fim de se autoconstruir, em detrimento da construção política honesta junto xs outrxs militantes.
Reafirmamos que o espaço de construção do estágio é horizontal e autogestionado, ou seja, não há hierarquias, todxs são igualmente responsáveis pelo comprometimento e cumprimento das tarefas. Verificamos que tanto a UJC quanto xs militantes de outras organizações deixam a desejar com relação ao devido cumprimento e repasse das tarefas colocando a qualidade do estágio em risco.
Ressaltamos que o intuito desta carta é um convite, um chamado para aquelxs interessadxs em construir o EIV-SC venham munidos de sua energia, comprometimento e honestidade. Só assim poderemos construir um espaço de formação política qualitativo, o tornando um pólo real de fortalecimento da resistência anticapitalista e anti-autoritária no estado. Esperamos que esta carta ressoe dentro da UJC e que possa trazer a autocrítica tão necessária à maioria das organizações da atualidade. Também acreditamos que a crítica sincera oportuniza as reflexões necessárias para avançarmos rumo a uma sociedade realmente igualitária onde não haja mais exploração das pessoas, umas pelas outras.

Carta da Comissão Política Pedagógica sobre a postura Juventude Comunista Avançando (JCA) durante a construção dos últimos EIV´s em Santa Catarina

Esta carta é o resultado de experiências e avaliações acumuladas pelos integrantes da Comissão Política Pedagógica do EIV-SC que vieram construindo o estágio durante os últimos anos e que no início desse ano julgaram necessária a construção deste documento. Os apontamentos feitos aqui são produtos da visão da comissão que construiu o estágio em 2016 e o realizou no início de 2017, não representando a totalidade dos integrantes que hoje constroem o EIV-SC.

 

Entendemos o EIV como um espaço importante para a formação da militância, que possibilita o intercâmbio entre pessoas do campo e cidade, e que se constitui enquanto uma ferramenta política e pedagógica na qual, as/os militantes envolvidas/os no processo de construção do mesmo, estão em constante processo de formação.

Desde seu início (no ano de 2006), a EIV-SC vem sendo construída por pessoas de distintas organizações e independentes, que possuem ideologias e concepções de ação política distintas, porém que convergem numa visão central: anti-capitalista, e valorização dos movimentos camponeses. Percebemos a importância que estas diferenças podem trazer para o enriquecimento do espaço, de modo a evitar que o estágio se torne fechado-restrito a uma única visão ideológica . Assim sendo, destacamos o quão importante são as distintas organizações e independentes fazendo parte do processo engajado dessa construção.

Esta carta vem no sentido de trazer nossas críticas frente às posturas e vícios demonstrados pela JCA, nos últimos anos de construção do EIV em SC.

O documento surge, após avaliação coletiva, do estágio interdisciplinar de vivência de 2017, em que entendemos que para receber o retorno da organização perante algumas críticas de atuações recorrentes, precisávamos explicitá-las em documento público,  para que assim possamos abrir o diálogo, e possibilitar a autocrítica das/os mesmas/os, que entendemos como necessária, para o avanço no processo de construção coletiva.

No ano de construção do EIV-SC 2017, tivemos a participação de dois militantes da organização do estágio e na composição da CPP. Os mesmos, se fizeram ausentes em diversos momentos importantes para a manutenção do estágio, que a cada ano, passa por dificuldades financeiras, frente ao cenário político vivenciado. Além das ausências que nem sempre eram de diálogo com o grande grupo, tivemos dificuldades para execução de tarefas. Sendo que um militante envolvido no estágio não se comprometeu na execução de nenhuma tarefa, durante o ano. E outro militante, apresentou falta de atenção na execução de tarefas, e falta de comunicação dos repasses.

Esse problema de comunicação gerou diversas situações desnecessárias e umas delas ocasionaram transtornos durante o estágio. Uma se deu quando uma pessoa, de outra organização política UJC, estagiária do ano anterior, avisou/pediu a um dos militantes da JCA, que a mesma iria passar dias no período de formação do EIV-2017, e o mesmo não nos repassou para levarmos em discussão. A pessoa no caso, chegou um dia pela noite no estágio, alegando ter nos informado, quando muitos de nós não fazíamos ideia da possibilidade do ocorrido, gerando a impressão a muitos, uma falta de seriedade com o espaço do EIV, entendendo que para estar presente fizemos um trabalho de construir e selecionar pessoas, e a participação não se dá no amiguismo, ou como um lugar de férias, de rever pessoas. Essa situação gerou um conflito, que poderia ser evitado ou minimizado com a comunicação comprometida com o coletivo.

Essa mesma falta de comunicação se mostrou presente, quando alguns estagiárias/os do ônibus de transporte para o oeste do estado, ficaram algumas horas a mais no assentamento de formação, e combinaram uma assembléia com esta minoria para rever um acordo coletivo deliberado com toda a plenária logo no início da EIV. O ocorrido, não foi levado para diálogo com os demais CPPs, pelo único CPP presente no momento, no caso militante da JCA, que se omitiu em levar a situação para nós, chegando em nossos ouvidos por incômodos de outras/os estagiárias/os, pela quebra do acordo coletivo inicial.

Essas situação somadas a um histórico de estágios anteriores em que houveram situações de autoritarismo na postura dos militantes, manutenção de militantes em número na CPP, sem o mesmo número de pessoas tendo de fato comprometimento com toda a construção, alguns se fazendo presentes apenas em reuniões de deliberações importantes (ex: grade, indicação de facilitadores e seleção de estagiários/os), fizeram com que nós integrantes da CPP 2017, entendermos que é importante levar esse descontentamento e desconfiança com a tal organização política, que tem sido observada a reproduzir posturas que podem ser vistas como de oportunismo, e autoconstrução.

Entendemos a importância de fazer críticas sinceras expostas, que possam trazer uma reflexão necessária para uma autoavaliação e mudanças nas ações da organização e suas/seus integrantes.Trabalhar para corrigir os erros nutre nosso aprendizado e gera acúmulo político e amadurecimento, necessário para caminharmos em uma sociedade na busca pela igualdade. Esperamos assim, que essa carta ressoe por dentro da organização e que as/os mesmas/os consigam fazer uma autocrítica, sincera, e assim consigamos mudanças qualitativas na construção de espaços coletivos com a mesma.
                             

Como as classes populares fizeram história

por Marcus Rediker [*]
entrevistado por Jérôme Skalski

Em Les Hors-la-loi de l’Atlantique (Os fora da lei do Atlântico)publicado pelas edições du Seuil, o historiador norte americano oferece-nos uma síntese das suas pesquisas a respeito da história da navegação à vela, matriz do sistema capitalista, mas também lutas, recalques e ideais da modernidade.

A sua obra Os fora da lei do Atlântico oferece-nos uma síntese de trinta anos de pesquisa sobre a história da navegação à vela dos séculos XVII, XVIII e da primeira metade do século XIX. Como se inscreve o seu trabalho na corrente histórica chamada “a historia subjacente” (histoire par en bas) 

Marcus Rediker: A primeira coisa que gostaria de dizer é que a expressão “historia subjacente” foi utilizada pela primeira vez pelo historiador francês Georges Lefebvre, nos anos anteriores à guerra. A tradição da história subjacente (historia por baixo) à qual efectivamente pertenço, compreende historiadores franceses, mas também e principalmente ingleses, como E. P, Thomson [1] e Christopher Hill [2] , historiadores marxistas e pioneiros desse tipo de história nos anos 60. Nos Estados Unidos nos anos 70, uma versão ligeiramente diferente desse tipo de história foi desenvolvida sob o nome de “historia de baixo para cima (history from the bottom up) no sulco dos movimentos contra a guerra do Vietname, movimentos estudantis, movimentos femininos, novos movimentos operários, mas também movimentos pelos direitos cívicos e os Panteras Negras, que aspiravam a uma nova maneira de escrever a historia. Fui formado por esses movimentos. Comecei os meus estudos com o desejo de contar um outro género de história, diferente da história habitual. Nos Estados Unidos, a verdadeira ciência histórica foi suprimida pela guerra-fria. O historiador norte-americano mais representativo desta corrente foi Howard Zinn, com a sua Historia Popular dos Estados Unidos [3] que foi vendida em milhões de exemplares. O que é muito importante neste género de história, é que é não só a história dos pobres ou mesmo das classes trabalhadoras em geral, mas também a da sua capacidade de agir (agency), ou seja da sua capacidade de afectar o curso da história, não apenas como instâncias passivas do processo histórico. As suas lutas afectaram profundamente o curso da história. Para mim esse foi sempre um ponto importante: mostrar como as classes populares fizeram história e mudaram o modo como o processo histórico se desenvolveu.

Um aspecto original da sua aproximação não é também ter descrito no mar um processo análogo ao que Marx analisa em O Capital sobre a transformação da manufactura como pivô da história do capitalismo moderno? 

Marcus Rediker: Muitas pessoas pensam que a essência do capitalismo está ligada quase exclusivamente ao trabalho assalariado. O meu trabalho foi o de sublinhar a centralidade do comércio servil, da escravatura e do trabalho forçado, no surgimento do capitalismo como sistema. O sistema servil do Atlântico, ao Brasil, às Caraíbas, ao norte da América, foi a fonte de uma enorme massa de capital. O meu ponto de vista foi em primeiro lugar quebrar as cadeias nacionais da história e mostrar que há fontes transnacionais e atlânticas dos desenvolvimentos económicos nacionais e em segundo lugar, insistir na importância do trabalho forçado nos desenvolvimentos. Outro dos meus argumentos é que o barco à vela, que se chama tecnicamente em inglês “o navio de alto mar de popa redonda” (round headed deep seaship), foi uma das máquinas mais importantes no início da era moderna e provavelmente uma das maquinas mais importantes a participar no surgimento do capitalismo. Os navios à vela e os trabalhadores que os faziam navegar cristalizaram literalmente os vários ramos desconexos da economia e um conjunto mundial. Esta maneira de considerar o navio à vela, e o navio negreiro em especial, como uma máquina dependente de um género particular do processo capitalista foi efectivamente influenciado pela minha leitura de Marx no que respeita ao processo de trabalho na manufactura. O navio à vela foi um factor decisivo na produção da força de trabalho para a economia mundial.

Mas também me interessei pela maneira como os navios negreiros foram o vector da produção, num sentido analítico, das categorias de “raças” que viriam a dominar o capitalismo ocidental. Para dar um exemplo do funcionamento deste facto — falo mais precisamente do meu livro — havia as equipagens de marinheiros de um lado, que eram ingleses, franceses. holandeses, etc, e que trabalhavam nos navios em qualquer parte da Europa. Chegavam às costas africanas e tornavam-se “Brancos” ou melhor dizendo, eram racialisados no decurso da viagem. Por outro lado, temos um grupo multi-étnico de africanos, fantis, malinques, ashantis, etc transportados nos navios negreiros pelo Atlântico e que, quando chegavam à Jamaica, ao Brasil ou à Virgínia, se tornavam “Negros”, representantes da “raça negra”. O movimento através do espaço e o tempo produziu categorias raciais de análise. É um outro aspecto essencial engendrado por este processo.

Demonstra também até que ponto a navegação à vela foi o campo de uma luta de classes frequentemente mal conhecida. Mesmo pioneira. 

Marcus Rediker: Sim, a navegação à vela como meio de trabalho totalitário foi um laboratório no qual os capitalistas e o Estado tentaram experiências para ver o que podia funcionar nos outros sectores da economia. Os marinheiros e as relações entre o capital e o trabalho, nos navios de guerra em especial, foram o campo de desenvolvimento de novas formas de relações de poder. Dos dois lados, houve experimentações e inovações. Os capitalistas tentaram organizar uma divisão complexa de trabalho para fazer funcionar essas máquinas e utilizaram formas de disciplina extremamente violentas que obrigavam os trabalhadores a colaborar, Os marinheiros, por outro lado, traduziam essa colaboração forçada em novas formas de resistência. Menciono isso no meu livro. Por exemplo, em inglês, a palavra greve (strike) vem de uma palavra que designa o efeito de abater as velas para as fazer descer (baixar as velas). A primeira greve teve lugar nas docas de Londres em 1788. Os marinheiros dos arredores baixaram as velas, pela parte de cima, para as baixar e imobilizar os navios. Nessa ocasião, a classe trabalhadora descobriu um novo poder, através da colaboração a bordo dos navios e um aprendizado para a luta.

É espantoso, apresenta igualmente um elo entre essas lutas sociais e políticas surgidas no meio marítimo e o início da grande pirataria no início do século XVII? Pirataria Potemkine de certa maneira, fonte secreta das revoluções americana e francesa, das Luzes, do abolicionismo, ou seja do socialismo? 

Marcus Rediker: As pessoas ficam surpreendidas ao descobrir que havia uma grande criatividade entre os piratas. A minha aproximação consistiu essencialmente em partir das condições de vida dos marinheiros dessa época, colocando uma questão muito simples: porque se tornaram piratas? A resposta a essa pergunta é muito interessante, porque ela leva-nos às condições de trabalho extremamente difíceis nos navios à vela, salários muito baixos, alimentação pobre, disciplina violenta… tudo isso levou as pessoas à pirataria, por elas próprias. Quando estudamos como os piratas organizavam os seus navios, descobrimos que era uma maneira completamente diferente dos navios comerciais e dos navios de guerra. Primeiro, eram democratas: elegiam os oficiais e o capitão. Nessa época os trabalhadores não tinham quaisquer direitos democráticos. Em parte alguma do mundo! Os piratas tentaram uma experiência extraordinária de democracia. E funcionou! Por outro lado, a maneira como dividiam o saque era igualitária. É também um aspecto diverso da estrutura salarial sobre os navios mercantes ou sobre os navios da Armada Real. Os piratas eram muito ciosos da igualdade. Claro, utilizavam os seus navios para atacar a propriedade dos comerciantes e por isso os governos francês e britânico queriam aniquilá-los. Mas a outra razão pela qual procuravam exterminá-los, é que eles se esforçavam por esmagar um exemplo de subversão que demonstrava pelos factos que se podia organizar a navegação de um modo diferente da habitual. Os piratas, de certo modo, eram como os trabalhadores das fábricas, elegiam a sua direcção e mostravam como podiam organizar as fábricas de um modo simultaneamente democrático e igualitário. Isso atormentava as autoridades francesas e britânicas mais ainda do que pelo ataque à propriedade cometido pelos piratas.

Se as autoridades conseguiram quebrar a pirataria, as suas ideias, levadas de boca em boca, pelos cais e pelas docas até ao interior das terras, conheceram uma via subterrânea até à sua actualização no decorrer dos processos revolucionários do fim do século. O meu trabalho foi seguir essas ideias através do tempo e demonstrar como se generalizaram entre as populações. Tiveram um impacto essencial no movimento das Luzes, mas também entre os trabalhadores. É o que chamei “as luzes a partir de baixo” (enlightment from below). É também, com efeito, nos navios que nasceu a consciência abolicionista. Por exemplo, um homem como Benjamin Lay, que foi um dos primeiros opositores à escravatura e que em quot8 lançou, o que foi pioneiro nesse século, um apelo a uma completa abolição do sistema servil, era marinheiro. Isso é absolutamente crucial. Foi porque era marinheiro e conhecia as terríveis condições de trabalho da equipagem nos navios, que desenvolveu um ideal de solidariedade entre todos os homens, livres, escravos, entre todos os povos e entre todos os trabalhadores da terra.

No fim da introdução da sua obra A bordo do navio negreiro [4]escreve: “O navio negreiro é um navio fantasma à deriva sobre as águas da consciência moderna”. O que quer sugerir com essa fórmula? 

Marcus Rediker: O que quero dizer é que o navio negreiro está sempre vivo quanto às consequências do que se passou. A herança do tráfico de escravos e a herança da escravatura, especialmente nos Estados Unidos, mas também na Grã-Bretanha, na França, e noutros países europeus, está ainda muito presente hoje. Está presente nas discriminações raciais, na profunda desigualdade estrutural que se apresenta nas nossas sociedades. As violências extremas feitas às populações nos bairros populares são um exemplo da permanência da herança da escravatura. Todas essas coisas remontam à história da escravatura e ao modo como a categoria de “raça” ficou institucionalizada na vida moderna. Quando digo que o navio negreiro é um “navio fantasma” quero dizer que ele ainda está connosco. A denegação é muito grande, mas a presença espectral da escravatura principalmente nos Estados Unidos, é extremamente importante, ainda é preciso muito para encerrarmos este assunto. Não somos capazes de acabar com ela porque não temos a coragem de a encarar de frente. É mais visível nos Estados Unidos porque o facto da escravatura foi vivido no território do país. A escravatura, para os europeus, foi vivida nas suas possessões coloniais, e é algo abstracto. Para os americanos foi um elemento concreto da vida de todos os dias, Há grandes diferenças entre a situação nos Estados Unidos e na Europa, mas principalmente do trabalho dos historiadores sobre os dois lados do Atlântico. A Europa não se pode considerar de fora deste problema.

(1) Edward Palmer Thompson, La Formation de la classe ouvrière anglaise (A formação da classe operária inglesa) , Le Seuil, Colecção “Points”, 2012.
(2) Christopher Hill, Change and Continuity in 17th-Century England (Mudança e continuidade na Inglaterra do século XVII) , Harvard University Press, 1975.
(3) Howard Zinn, Une histoire populaire des États-Unis (Uma historia popular dos Estados Unidos) , Agone, 2002.
(4) Marcus Rediker, À bord du négrier. Une histoire atlantique de la traite (A bordo do navio negreiro. Uma história atlântica do tráfico) , Seuil, 2013. 

[*] Historiador, estado-unidense, www.marcusrediker.com

O original encontra-se em www.legrandsoir.info/… . Tradução de MA.

Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ 

fonte: http://resistir.info/varios/rediker_01jun17_p.html

Indicação de material formativo – Documentário “Bicicletas de Nhanderú”

O documentário “Bicicletas de Nhanderú” foi produzido em 2011 pelos Guarani Mbyá, na aldeia Koenju, em São Miguel das Missões (RS), abordando elementos da espiritualidade, cotidiano e visão de mundo dos Guarani Mbyá.

O longa retrata o período de construção de uma casa de reza (Oby) na aldeia, e a partir daí discute os problemas que podem ocorrer com o adentramento desenfreado de elementos da cultura não-índia dentro das aldeias, como por exemplo o próprio consumismo.

É necessário não termos uma visão romantizada das populações indígenas, ou seja, uma ideia que dissemina estereótipos e resume os índios em pessoas nuas, que caçam e usam cocares. O documentário é muito importante para entendermos sobre a luta cotidiana dos povos indígenas cotra os latifundiários, que a todo momento ameaçam sua sobrevivência na tentativa de retirarem seus direitos às terras, promovendo diariamente verdadeiros massacres contra essas populações.

Assista o documentário aqui: https://www.youtube.com/watch?v=087fEEoJ5p4

MAB Realiza 8º Encontro Nacional No Rio De Janeiro Em Outubro De 2017

Arte: MAB

Entre os dias 1 e 5 de outubro, aproximadamente 4 mil atingidos e atingidas de todas regiões do Brasil se reunirão na capital carioca para celebrar e apontar os próximos passos do movimento.
Durante os dias 1 a 5 de outubro de 2017, no aniversário de cem anos da Revolução Russa, o Rio de Janeiro receberá o 8º Encontro Nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens. Com o lema “Água e energia com soberania, distribuição da riqueza e controle popular”, o evento reunirá cerca de 4 mil atingidos de todas as regiões do Brasil.
Desde o último Encontro Nacional do MAB, que ocorreu em Cotia (SP) em setembro de 2013 e reuniu aproximadamente 3 mil pessoas, o movimento expandiu sua área de atuação – de 17 para 19 estados -, conquistou diversas vitórias, mas também passou a enfrentar novos desafios.
Como diria o líder revolucionário soviético Vladimir Ilitch Lenin, “há décadas em que nada acontece e há semanas em que décadas acontecem”. Nesse período de 4 anos que separa o último grande encontro dos atingidos por barragens, o Brasil sofreu um golpe e setores da burguesia iniciaram uma grande ofensiva sobre a classe trabalhadora.
Para a integrante da coordenação do MAB, Alexania Rossato, o atual momento político brasileiro e latino-americano é grave e necessita do fortalecimento e união da esquerda nacional. “Apesar de crescimento do nosso movimento, o campo popular e a democracia brasileira sofreu um duro golpe. Vivemos um momento de grandes retrocessos e apenas com muita união e força do povo conseguiremos reagir”, analisa.

Objetivos

Os três principais objetivos desse 8º Encontro são: 1) consolidar a união entre campo e cidade, com o estreitamento da relação entre atingidos por barragens e trabalhadores do setor elétrico; 2) reafirmar a necessidade da criação de um modelo energético popular para o Brasil; 3) realizar uma grande pressão popular pela aprovação da Política de Direitos para as Populações Atingidas por Barragens (PNAB).
Além disso, o Encontro pretende reunir os atingidos por barragens de todo Brasil para celebrar a vida, partilhar vitórias, ampliar as conquistas, trocar experiências, consolidar nossa força própria e organização, discutir temas que afetam a vida cotidiana, planejar e decidir as futuras lutas.
Outro ponto importante é fortalecer a unidade, alianças e a presença das organizações aliadas nacionais e internacionais, do campo e da cidade.
Também será um tópico central a denúncia do atual modelo energético, as violações de direitos, os crimes sociais e ambientais das empresas e toda exploração praticada sobre as populações atingidas e o povo brasileiro.
Além disso, o Encontro servirá como oportunidade para a realização de uma avaliação crítica sobre o legado histórico que a revolução Russa – que em 2017 completa 100 anos – trouxe para a humanidade.
A partir dessa experiência histórica, o MAB pretende debater conjuntamente os desafios para a construção de uma nova sociedade, que seja capaz de transformar pela raiz todas as estruturas injustas e construir um futuro melhor para todos e todas, onde o trabalho e a natureza sejam respeitados e cuidados para se atingir um alto grau de desenvolvimento humano com a adequada sustentabilidade ambiental.
Importância do Encontro
Realizar um encontro nacional de atingidos por barragens é sempre um motivo de alegria, responsabilidade e de grande importância. É o momento em que toda militância, jovens, mulheres, homens, crianças, amigos e aliados reúnem-se nacionalmente e são chamados a refletir e tomar decisões importantes sobre a vida e futuro da luta e organização dos atingidos.
Pelo seu método e processo organizativo, o MAB organiza o encontro nacional a cada quatro anos como uma forma de avaliar e decidir as linhas de ação para os anos futuros.

Local e data

A escolha da cidade do Rio de Janeiro como local para sediar o 8º Encontro Nacional do MAB foi definida devido a grande importância geopolítica e potencialidade energética da cidade. Dentro do seu perímetro está grande parte do pré-sal, uma das maiores reservas de petróleo do mundo, a Petrobrás, um dos maiores e mais importantes patrimônios do povo brasileiro, e a Eletrobrás, estatal de energia elétrica. Atualmente, toda esta riqueza e patrimônio do povo estão sendo privatizados e entregues às empresas internacionais.
Para o MAB, é dever do povo brasileiro lutar para que tudo isso esteja a serviço dos trabalhadores e trabalhadoras. É um local que simboliza a luta na energia por soberania, distribuição da riqueza e controle popular.

Representação do Encontro

O movimento deve garantir a presença de atingidos por barragens, com a participação plena de homens, mulheres, jovens e crianças, de toda militância e lideranças que coordenam os grupos de base, a organização e a luta dos atingidos, pertencentes de todos estados brasileiros.
Garantir a participação e solidariedade das organizações aliadas, parceiros, lideranças políticas, entidades e lideranças religiosas e amigos do MAB das diversas partes do Brasil e do mundo, como as organizações da Plataforma Operária e Camponesa de Energia, Via Campesina, Frente Brasil Popular, Movimento de Afetados por Represas (MAR) e entidades internacionais.
Todos lutadores e lutadoras no Brasil e no mundo, sintam-se convidados e acolhidos desde já!
Plantar a semente da resistência e da Esperança – Rumo ao 8º Encontro Nacional.

Fonte: http://mpabrasil.org.br/mab-realiza-8o-encontro-nacional-no-rio-de-janeiro-em-outubro-de-2017/

Edição: Comunicação MAB

Noticias fresquinhas pessoal!

A comissão política pedagógica do EIV-SC 2017, esteve esse ano todo trabalhando e confiando que o estagio aconteceria, porém toda a conjuntura universitária e nacional fez com que esperássemos a certeza de que a verba saísse para assim conseguirmos abrir as inscrições. E finalmente temos a certeza que que o EIV-SC 2017 vai acontecer, sairemos de Floripa dia 19 de janeiro, com volta no dia 9 de fevereiro. As inscrições irão abrir no dia 20 de dezembro, próxima terça-feira, e irão ate dia 6 de janeiro. 

Arriba los que luchan!dscf5719